Dentes.
Não havia dúvida alguma: eram dentes caninos humanos.
As manchas de sangue espalhadas pela raiz denunciavam que haviam sido arrancados à força, sem qualquer cuidado ou anestesia. Era um ato de crueldade pura, exposto ali sobre a mesa do For Long Tomorrow, entre copos de refrigerante e xícaras de café.
Rell perguntou.
A expressão de Kyny continuava séria.
Era estranho vê-la daquele jeito.
Desde que a conheci, parecia incapaz de ficar triste por mais de cinco segundos.
Respondeu ela.
Meu estômago embrulhou.
Aquilo não parecia uma sequência de crimes. Parecia um ritual.
Perguntei.
Respondeu Rell.
A frase me fez piscar.
Assumir. Como se fosse algo comum.
Como se existisse um protocolo inteiro para situações daquele tipo.
Talvez existisse.
Até poucas horas atrás eu achava que pessoas controlando eletricidade eram impossíveis. Agora estava sentado numa cafeteria ouvindo sobre desaparecimentos sobrenaturais enquanto analisava dentes humanos.
Minha referência de normalidade estava morrendo rápido.
Respondeu Rell.
Ele girou um dos dentes entre os dedos.
— Tudo o que encontramos foram os caninos.
Completou Kyny.
Ela apoiou os cotovelos na mesa.
— Um conhecido nosso trabalha para uma organização que costuma saber de tudo que acontece por aqui.
Ela pronunciou o nome como se eu devesse reconhecê-lo.
Quando percebeu minha cara de confusão, continuou:
— É um grupo enorme de comerciantes, negociadores, caravanas, mensageiros... essas coisas. Eles vendem, compram, trocam informação. Se alguma coisa acontece na região, normalmente eles descobrem primeiro.
Explicou Rell.
Acrescentou Kyny.
Carmesim.
Parecia mais um título do que um nome.
Meus olhos voltaram para os dentes. Foi então que percebi algo estranho.
Peguei um dos caninos e aproximei do rosto.
Na raiz havia uma textura irregular. Pequenas manchas acinzentadas. Quase como pedra.
Os três olharam para mim.
Perguntou Kyny.
Apontei.
Rell pegou o dente imediatamente.
Depois outro.
Depois outro.
Seu semblante endureceu.
July se aproximou para observar.
Continuei.
O silêncio que se seguiu foi desconfortável.
Perguntei.
Respondeu July.
Ele respondeu novamente. Frustrado.
Peguei meu caderno e comecei a anotar.
Desaparecimentos. Caninos arrancados. Petrificação. Possível Anomalia.
Tudo parecia parte de um quebra-cabeça que eu não tinha peças suficientes para montar.
Perguntou Kyny.
Rell assentiu.
Pouco depois, estávamos caminhando pelas ruas de Twilight Harvest.
A caminhada durou quase uma hora.
Ou pelo menos foi o que pareceu.
Eu passava mais tempo observando a cidade do que prestando atenção no caminho.
As casas coloridas. As árvores atravessando quintais. As flores penduradas nas varandas.
Tudo parecia pertencer a um único organismo gigantesco.
Enquanto isso, Kyny e July discutiam algo extremamente importante.
Rell caminhava ao lado deles rindo.
Eu apenas observava.
Talvez fosse a primeira vez em anos que eu estava simplesmente acompanhando pessoas.
Sem obrigação. Sem expectativa. Só... companhia.
Eventualmente as construções começaram a diminuir.
A vegetação aumentou. E então vi um enorme arco marcando a entrada da cidade.
Twilight Harvest.
Além dele existia um fluxo constante de mercadorias, carroças, caminhões e viajantes.
Foi ali que eu o vi. Escorado contra uma pilha de caixotes.
A fumaça veio primeiro.
Depois a jaqueta de couro.
Depois o cigarro.
Depois os olhos. Cinzentos. Profundos. Predatórios.
Ele usava uma blusa arrastão sob a jaqueta aberta.
Um colar de ankh pendia do pescoço.
As cicatrizes espalhadas pelo corpo pareciam registrar uma vida inteira de violência.
Gritou Kyny.
O homem virou a cabeça.
Seu olhar percorreu o grupo.
Parou em mim.
Por um segundo senti que ele estava me desmontando peça por peça. Como se pudesse enxergar coisas que eu mesmo não via.
Quando nos aproximamos, ele apagou o cigarro contra a terra.
A voz era suave.
Mas havia algo perigoso nela.
Kyny colocou os dentes na frente dele.
Carmesim pegou um deles.
Observou.
Depois outro.
Depois outro.
O silêncio durou tempo demais.
Meu coração falhou uma batida.
Kyny respondeu imediatamente.
Ele devolveu o dente.
O sorriso de Kyny desapareceu.
O tom de Carmesim endureceu.
— Um garoto das caravanas. Nunca encontramos o corpo.
Kyny explodiu.
O erro aconteceu no mesmo instante.
Carmesim agarrou a gola da camiseta dela.
O movimento foi tão rápido que quase não acompanhei.
Rell deu apenas um passo à frente.
Só isso. Nada mais. Mas foi suficiente.
Carmesim soltou. Bufando.
July se aproximou de mim.
Perguntei, em um misto de medo e curiosidade.
Foi nesse momento que ouvi.
Franzi a testa.
Baixo. Distante. Como uma batida cardíaca.
Ninguém respondeu.
Olhei ao redor. Os outros continuavam conversando normalmente.
Minha voz saiu mais fraca.
July balançou a cabeça. Rell também.
Mas alguma coisa estava errada. Eu sentia.
Um dos trabalhadores da Guilda congelou.
Outro largou uma caixa.
O ar ficou pesado.
Alguém começou a correr.
Então veio o grito.
Um som tão carregado de terror que parecia rasgar o próprio ambiente.
Todos se viraram. O trabalhador caiu de joelhos.
Tremendo. Apontando para algo atrás das mercadorias.
Meu corpo se moveu antes da razão. E então eu vi.
Não houve luta. Não houve resistência.
Da base do pescoço para cima não existia mais nada.
A cabeça havia sido arrancada.
O sangue cobria os fardos próximos em um padrão grotesco.
Por um segundo inteiro ninguém falou.
A voz de Rell soou firme.
Instantaneamente. Protetora.
Carmesim observava o cadáver. Sem surpresa. Sem choque.
Como alguém que já esperava aquilo.
Seu olhar correu pela vegetação ao redor. Pela floresta. Pelas sombras.
Então ele praguejou baixinho.
Pela primeira vez desde que o conheci, parecia preocupado.