Bat Country I

Carmesim atravessou a distância até o aliado sobrevivente sem hesitar.

O cadáver ainda estava ali, espalhado contra as mercadorias da Guilda como um aviso grotesco, mas sua atenção não foi para o morto.

Foi para quem havia ficado vivo.

— Ei... ei, calma. Respira.

Ele se ajoelhou na terra batida e segurou o garoto pelos ombros.

O jovem tremia. Os olhos estavam fixos em algum ponto além do corpo do colega, além da própria realidade. Carmesim o puxou para perto em um abraço firme. Por um instante, a imagem que eu tinha dele se despedaçou.

Até então, eu enxergava Carmesim como alguém bruto, arrogante e perigosamente confiante. Mas, naquele instante, percebi outra coisa. 

A Guilda não era apenas um trabalho para ele. Era família.

Do-dom.
Do-dom.
Do-dom.

O som continuava… aquela batida estranha. Aquele coração invisível que só eu parecia escutar.

— Cadê os outros? — perguntou Carmesim.

A urgência em sua voz era diferente agora.

— Onde estão os outros que estavam com você?

O garoto não respondeu.

Eu olhei ao redor, só então percebi que a entrada da cidade estava vazia.

Minutos atrás existiam comerciantes, carregadores, membros da Guilda organizando mercadorias e viajantes entrando e saindo dos portões. Agora… Não havia ninguém.

Restávamos apenas nós, eu, Kyny, July, Rell, Carmesim, o sobrevivente e o cadáver.

O vento atravessou as árvores, ecoando uma voz.

— Vocês entraram no caminho de nosso senhor poderoso... 

Ella parecia distante. Próxima. Alta. Baixa.

Tudo ao mesmo tempo.

Como se estivesse sendo falada por várias bocas escondidas na floresta.

— Encontraram as mensagens que escolhem os verdadeiros. 

Meu estômago afundou. 

Os dentes que representavam as vítimas não eram restos, eram convites.

— As mensagens do Destino.

A voz prosseguiu.

— Vocês serão os próximos a participar da renovação.

Renovação… 

A palavra me causou arrepios. Não parecia algo religioso, parecia algo cirúrgico, algo que exigia vítimas.

Minha mente tentava desesperadamente organizar aquelas informações. 

— Aparece aí, seu merda!

A explosão veio de Kyny.

— Quem tu acha que é?!

Seus punhos estavam cerrados com tanta força que pareciam prestes a sangrar. Eu conseguia ouvir os estalos de eletricidade escapando entre seus dedos.

— Tu é nada, otário!

Por um segundo achei que ela fosse avançar.

Mas então o mundo respondeu.

GHUMMMM—

O som atravessou tudo. O ar, a terra, até mesmo meus ossos. 

Todos nós levamos as mãos aos ouvidos. A pressão parecia perfurar o crânio.

Era como se alguma coisa gigantesca estivesse vibrando dentro da minha cabeça.

Então a voz voltou. Mais próxima. Mais orgulhosa.

Bat Country.

O mundo apagou. Não escureceu. Apagou.

Num instante eu enxergava a entrada da cidade. No outro, não enxergava absolutamente nada.

Nenhuma cor. Nenhuma sombra. Nenhuma luz. Nada.

O vazio absoluto.

— A bênção concedida por nosso senhor...

A voz continuava ecoando.

— Vocês estão dentro do alcance da habilidade.

Habilidade. 

Uma Anomalia. 

Eu havia sido atingido.

Sem toque. Sem aviso. Sem defesa.

— Não se preocupem.

A voz parecia sorrir.

— Ela os conduzirá ao fim sagrado.

Ouvi Kyny engolir seco. Pela primeira vez desde que a conheci… ela parecia assustada.

— Alguém consegue enxergar alguma coisa?
— Não.

Respondeu Rell.

A voz dele veio de algum lugar à minha esquerda.

— Nem um pouco.

— Estamos encurralados.

Silêncio. 

Então July ordenou.

— Não se movam.

A ordem foi simples, mas todos obedeceram, inclusive eu.

Compreendi o raciocínio quase imediatamente.

Se não podíamos usar os olhos… July usaria os ouvidos.

Nenhum de nós respirava direito. Nenhum de nós ousava dar um passo.

A única esperança era que ele escutasse algo antes do inimigo atacar.

— Que merda...

A voz de Carmesim rompeu o silêncio.

Ouvi o couro de sua jaqueta ranger enquanto ele se levantava. Ao lado dele, o sobrevivente também pareceu se mover.

— Senhor Carmesim...

A voz do garoto tremia.

— Eu quero ir pra casa…

Ele não parecia ter menos de vinte anos, mesmo assim, naquele momento, soava como uma criança perdida. 

Ainda acreditava que existiria uma casa para voltar. Carmesim respondeu alguma coisa. Baixo demais para eu entender. Talvez uma promessa. Talvez uma mentira necessária.

Talvez tenha tropeçado. Talvez apenas tentasse recuperar o equilíbrio. Mas o fim foi inevitável…

VOOOSH—
SKHAK.

O som foi instantâneo. Rápido demais. Violento demais. 

O som de carne sendo aberta foi impossível de ignorar. 

— Senhor... Carmesim...

A voz saiu fraca, inocente. Agonizante. Desaparecendo junto com sua respiração. 

Um instante depois… um corpo inteiro colidindo contra o chão. 

Silêncio.

Ninguém respirou. Ninguém se moveu.

— O primeiro foi purificado.

A voz ecoou pela escuridão. Satisfeita.

— O espírito dele descansa.

Uma pausa.

— Faltam apenas cinco.

O mundo ficou quieto novamente. Apenas o vento e a floresta vivendo.

Apenas nossas respirações e a fúria crescente de Carmesim.

Mesmo sem enxergá-lo… eu conseguia sentir. Alguma coisa dentro dele estava prestes a explodir.

Se nosso predador podia nos atacar… Por que parou? Por que esperar? Por que não terminar aquilo imediatamente?