Carmesim atravessou a distância até o aliado sobrevivente sem hesitar.
O cadáver ainda estava ali, espalhado contra as mercadorias da Guilda como um aviso grotesco, mas sua atenção não foi para o morto.
Foi para quem havia ficado vivo.
Ele se ajoelhou na terra batida e segurou o garoto pelos ombros.
O jovem tremia. Os olhos estavam fixos em algum ponto além do corpo do colega, além da própria realidade. Carmesim o puxou para perto em um abraço firme. Por um instante, a imagem que eu tinha dele se despedaçou.
Até então, eu enxergava Carmesim como alguém bruto, arrogante e perigosamente confiante. Mas, naquele instante, percebi outra coisa.
A Guilda não era apenas um trabalho para ele. Era família.
O som continuava… aquela batida estranha. Aquele coração invisível que só eu parecia escutar.
A urgência em sua voz era diferente agora.
O garoto não respondeu.
Eu olhei ao redor, só então percebi que a entrada da cidade estava vazia.
Minutos atrás existiam comerciantes, carregadores, membros da Guilda organizando mercadorias e viajantes entrando e saindo dos portões. Agora… Não havia ninguém.
Restávamos apenas nós, eu, Kyny, July, Rell, Carmesim, o sobrevivente e o cadáver.
O vento atravessou as árvores, ecoando uma voz.
Ella parecia distante. Próxima. Alta. Baixa.
Tudo ao mesmo tempo.
Como se estivesse sendo falada por várias bocas escondidas na floresta.
Meu estômago afundou.
Os dentes que representavam as vítimas não eram restos, eram convites.
A voz prosseguiu.
Renovação…
A palavra me causou arrepios. Não parecia algo religioso, parecia algo cirúrgico, algo que exigia vítimas.
Minha mente tentava desesperadamente organizar aquelas informações.
A explosão veio de Kyny.
Seus punhos estavam cerrados com tanta força que pareciam prestes a sangrar. Eu conseguia ouvir os estalos de eletricidade escapando entre seus dedos.
Por um segundo achei que ela fosse avançar.
Mas então o mundo respondeu.
O som atravessou tudo. O ar, a terra, até mesmo meus ossos.
Todos nós levamos as mãos aos ouvidos. A pressão parecia perfurar o crânio.
Era como se alguma coisa gigantesca estivesse vibrando dentro da minha cabeça.
Então a voz voltou. Mais próxima. Mais orgulhosa.
O mundo apagou. Não escureceu. Apagou.
Num instante eu enxergava a entrada da cidade. No outro, não enxergava absolutamente nada.
Nenhuma cor. Nenhuma sombra. Nenhuma luz. Nada.
O vazio absoluto.
A voz continuava ecoando.
Habilidade.
Uma Anomalia.
Eu havia sido atingido.
Sem toque. Sem aviso. Sem defesa.
A voz parecia sorrir.
Ouvi Kyny engolir seco. Pela primeira vez desde que a conheci… ela parecia assustada.
Respondeu Rell.
A voz dele veio de algum lugar à minha esquerda.
— Nem um pouco.
Silêncio.
Então July ordenou.
A ordem foi simples, mas todos obedeceram, inclusive eu.
Compreendi o raciocínio quase imediatamente.
Se não podíamos usar os olhos… July usaria os ouvidos.
Nenhum de nós respirava direito. Nenhum de nós ousava dar um passo.
A única esperança era que ele escutasse algo antes do inimigo atacar.
A voz de Carmesim rompeu o silêncio.
Ouvi o couro de sua jaqueta ranger enquanto ele se levantava. Ao lado dele, o sobrevivente também pareceu se mover.
A voz do garoto tremia.
Ele não parecia ter menos de vinte anos, mesmo assim, naquele momento, soava como uma criança perdida.
Ainda acreditava que existiria uma casa para voltar. Carmesim respondeu alguma coisa. Baixo demais para eu entender. Talvez uma promessa. Talvez uma mentira necessária.
Talvez tenha tropeçado. Talvez apenas tentasse recuperar o equilíbrio. Mas o fim foi inevitável…
O som foi instantâneo. Rápido demais. Violento demais.
O som de carne sendo aberta foi impossível de ignorar.
A voz saiu fraca, inocente. Agonizante. Desaparecendo junto com sua respiração.
Um instante depois… um corpo inteiro colidindo contra o chão.
Silêncio.
Ninguém respirou. Ninguém se moveu.
A voz ecoou pela escuridão. Satisfeita.
Uma pausa.
O mundo ficou quieto novamente. Apenas o vento e a floresta vivendo.
Apenas nossas respirações e a fúria crescente de Carmesim.
Mesmo sem enxergá-lo… eu conseguia sentir. Alguma coisa dentro dele estava prestes a explodir.
Se nosso predador podia nos atacar… Por que parou? Por que esperar? Por que não terminar aquilo imediatamente?