Twilight Harvest

“101… 102… 103…”

Contar carros.

Minha mãe me ensinou isso quando viajávamos. Era a forma dela de me manter quieto sem precisar pedir silêncio diretamente. Ela nunca gostou muito da minha voz.

“8 horas… 31 minutos…”

Contar horas.

Eu precisava fazer isso para não me perder no tempo, já que nossa casa nunca teve relógios. Culpa de alguma superstição do meu pai.

“O tempo não pertence a ninguém.” Era o que ele costumava dizer.

Passei praticamente toda a viagem sem trocar uma única palavra com o motorista.

Eriksen. Esse era o nome dele, segundo o contrato da viagem.

Pelos cabelos grisalhos, parecia ter pouco mais de quarenta anos, mas o casaco jeans largo fazia ele parecer mais novo. Talvez tentasse manter algum resquício da juventude. Talvez simplesmente gostasse daquilo.

Eu me sinto mal por analisar tanto as pessoas. Na verdade, sinto-me mal por analisar tudo.

Mas pensar sempre foi a única coisa que me restou quando eu não podia me expressar de nenhuma outra forma.

Depois do aeroporto, pegamos mais algumas horas de estrada até o interior. A paisagem foi mudando aos poucos. Menos prédios. Menos cidades. Mais árvores.

Mais silêncio.

“Twilight Harvest — 10 quilômetros.”

Li a placa baixinho, quase sem perceber.

Por sorte, Eriksen não ouviu.

Ir para Twilight Harvest sempre foi uma promessa da minha mãe. Um tipo de “presente de aniversário” cruel, onde quem mais saiu ganhando foi ela por finalmente conseguir se livrar de mim.

Agora eu estava indo morar em outro país. Outra cidade. Outra realidade.

Com um tio que eu nunca vi na vida. Que divertido.

As árvores começaram a ficar estranhas conforme nos aproximávamos da cidade. Altas demais. Tortas demais. Cresciam em padrões quase conscientes, como se soubessem exatamente onde queriam alcançar.

— Esse lugar continua estranho.

A voz de Eriksen atravessou o ronco do motor.

Ele continuou olhando para a estrada.

— Toma cuidado lá, guri. A cidade é cheia de malucos.

Permaneci quieto.

— Não sei por que alguém escolheria morar naquele lugar… mas já que tá indo, evita encrenca.

Encrenca. Como se eu fosse esse tipo de pessoa.

Mesmo assim, acabei quebrando meu próprio silêncio.

— Você já morou lá?

Pelo retrovisor, vi seus olhos se arregalarem discretamente. Talvez ele estivesse começando a achar que eu era mudo.

— Morei até os vinte e cinco —

respondeu.

— Saí pra fazer faculdade na capital. Só depois que fui embora percebi o quão bizarra aquela cidade era.

Ele apertou um pouco mais o volante.

— Tudo sobrenatural que existe no mundo… em Twilight Harvest acontece dobrado.

Sobrenatural.

Eu até teria achado aquilo ridículo alguns anos atrás. Mas não mais.

Não depois de certas coisas. Ainda assim… “dobrado”?

O que exatamente significava isso?

Eu tentei lembrar onde já havia ouvido falar sobre Twilight Harvest antes.

Nada. Nenhum livro. Nenhuma notícia. Nenhum mapa comum.

Era quase como se a cidade existisse apenas para quem já soubesse dela.

O silêncio voltou a ocupar o carro. Mas agora eu estava genuinamente curioso.

- - -

“Rua Florence… Rua Bridgers…”

Por sorte, sempre levo meu caderno comigo. Ele ajuda a organizar minha cabeça.

Um antigo professor dizia que qualquer pensamento importante deveria ser anotado antes de desaparecer.

Então comecei a desenhar um mapa da cidade. Ou pelo menos da forma como eu enxergava ela.

Talvez isso ajudasse meu cérebro a aceitar que eu realmente estava ali.

Twilight Harvest é laranja. Não um laranja vivo ou exagerado. É um tom outonal. Desbotado. Quente. Como um pôr do sol preso para sempre entre quatro e cinco da tarde.

A cidade inteira parece coberta por uma luz âmbar constante. Os prédios são baixos, aconchegantes, raramente ultrapassando cinco ou seis andares. Pela primeira vez na vida, consigo olhar para cima e ver o céu sem dificuldade.

O cheiro de madeira queimada paira no ar. As chaminés das casas liberam fumaça fina contra o céu dourado.

A floresta ao redor não apenas circunda Twilight Harvest. Ela invade a cidade.

Árvores enormes surgem entre construções, atravessam calçadas e criam túneis naturais sobre algumas ruas. O mais estranho é que ninguém parece se importar.

Como se natureza e arquitetura tivessem feito algum acordo silencioso.

Apesar do conforto visual, existe algo errado aqui. Uma sensação estranha. Como se o sobrenatural estivesse dissolvido no próprio oxigênio.

Invisível. Mas presente.

Talvez fossem apenas as palavras de Eriksen ecoando na minha cabeça. Ou talvez a própria cidade estivesse me observando.

Um ronco alto interrompe meus pensamentos. Minha barriga. Fazia tempo desde minha última refeição.

As placas da cidade apontavam para o distrito comercial e gastronômico.

“O Calçadão.”

Pelo menos era assim que os moradores pareciam chamar. Sigo pela calçada desviando dos troncos gigantescos enquanto arrasto minha mala.

Seguro firme a alça da mochila. Cidade nova. País novo. Pessoas novas. Nunca se sabe.

Depois de alguns minutos caminhando, finalmente chego ao Calçadão.

É enorme.

Uma área inteira feita para pedestres, lotada de restaurantes, lojas pequenas e cafés. Nada luxuoso. Nada exagerado. Tudo parece feito para gente comum.

“Rabbit Heart.”

Esse nome imediatamente chamou minha atenção.

O letreiro usava uma fonte simples, acompanhado por um pequeno coração com orelhas de coelho.

A fachada misturava branco e vermelho, lembrando alguma confeitaria antiga. Através da vitrine enorme de vidro, conseguia ver um interior aconchegante, quente, quase nostálgico.

Minha fome praticamente me puxou até a entrada. Encostei a mão na maçaneta.

CRASH!

O som explodiu nos meus ouvidos.

O mundo desacelerou.

Uma figura foi arremessada de dentro do estabelecimento diretamente contra a vitrine, atravessando o vidro em uma chuva brilhante de estilhaços.

continua...