Faísca

— FILHO DA PUTA!

O grito foi estridente.

Uma voz contralto, quase andrógina, cortou o silêncio deixado pelo estilhaçar do vidro.

Os cacos ainda caíam no chão quando olhei na direção da explosão. A cena era surreal.

Uma garota estava jogada no asfalto, cercada por fragmentos brilhantes da vitrine destruída. Apesar da queda brutal, ela ainda sorria.

Sua pele tinha um tom claro, quase baunilha. Os cabelos azul-royal eram volumosos, ondulados e vibrantes demais para parecerem naturais — mas, estranhamente, funcionavam perfeitamente nela.

Vestia uma blusa branca com detalhes azuis sob um casaco amarelo intenso, shorts jeans, meias altas e tênis surrados.

Os olhos dourados permaneciam fixos na janela destruída.

Ela parecia irritada. Mas também… divertida.

— Moça! Você tá bem?

Tentei me aproximar, estendendo a mão para ajudá-la a levantar.

Então uma voz surgiu ao meu lado.

— Não toca nela, senão tu vai tomar um choque fodido.

Recuei imediatamente. Um garoto havia surgido ao meu lado sem que eu percebesse.

Ele tinha aproximadamente minha altura, mas sua presença parecia muito maior. Pele extremamente pálida. Cabelos completamente brancos. Um moletom preto com detalhes vermelhos que claramente parecia caro demais para alguém da nossa idade.

Calça larga. Tênis de skate.

E olhos vermelho-sangue intensos o suficiente para me deixar desconfortável.

O rosto dele permanecia quase imóvel. Sem emoção.

— Ela tá com a habilidade ativa —

explicou.

— Se você encostar nela agora, é capaz de desmaiar.

Choque? Antes que eu pudesse sequer processar aquilo, a garota se levantou devagar.

Passou o antebraço pela boca, limpando o sangue que escorria do lábio.

Foi então que eu vi.

Hnnnnn-ZZZT

Raios. Eletricidade pura.

Os braços dela estavam cobertos por energia azulada. Faíscas estalavam no ar úmido da tarde, correndo pela pele dela como serpentes luminosas.

Meu cérebro simplesmente travou.

— Ah, para com isso, July! 

Ela reclamou, olhando para o garoto de cabelos brancos. 

— Vai que esse cara aqui mete a porrada na gente.

O sorriso dela mudou completamente quando me encarou. Continuava desafiador.

Mas agora também parecia… amigável.

July continuou me analisando em silêncio. Como se estivesse desmontando minha existência peça por peça.

A postura daquela garota era absurda.

As pernas fortes. Os ombros largos.

As marcas de luta espalhadas pelo corpo. O cabelo bagunçado.

Ela parecia uma figura saída de alguma mitologia urbana moderna.

Os dois claramente estavam acostumados com aquilo.

Eu não.

Eu só conseguia apertar o cabo da mala enquanto sentia meu conceito de realidade começar a desmoronar. O que eram aquelas pessoas?

July bufou.

— Fica atrás da gente.
— O quê?
— Ou tu vai acabar se machucando.

Obedeci imediatamente. Então entendi o motivo.

Uma figura surgiu dentre os destroços da lanchonete.

Grande. Muito grande.

Devia ter quase um metro e noventa de altura. Cabelos crespos caindo até o pescoço. Pele em tom terracota brilhando sob a luz âmbar do fim de tarde.

Os olhos verdes eram afiados. Hostis.

Ele vestia um moletom laranja colado ao corpo, revelando músculos densos, além de uma bermuda larga que parecia saída direto dos anos noventa.

Ele também estava machucado. O braço permanecia estendido, com a mão aberta na nossa direção.

Como se segurasse algo invisível.

“Abra a mente.”

Forcei meu foco. Então vi.

Bolhas.

Diversas bolhas de água orbitavam ao redor dele, especialmente acima da palma aberta de sua mão. Elas flutuavam em perfeito equilíbrio. Como planetas presos em uma órbita invisível.

Aquilo não fazia sentido. Eu sabia que o sobrenatural existia.

Mas ver alguém controlando aquilo daquela forma… era diferente.

— Eu tô perdendo a merda da paciência contigo, Maxine —

o homem rosnou.

A voz dele não era exageradamente grave. Mas carregava um peso intimidador.

— Vou falar só mais uma vez. Dá o fora daqui e para de me encher o saco com essas ideias idiotas.
Hi-Hehehe!

A garota simplesmente riu. Como se ameaças fossem entretenimento.

— Você é engraçado, Jão!

Pelo jeito que ele franziu a testa, aquele definitivamente não era o nome dele.

— Eu vim te convidar numa boa… mas agora eu quero é te provar, seu merda!

Antes mesmo que eu processasse a frase, uma das bolhas disparou.

FWOOSH!

O projétil cruzou o ar numa velocidade absurda.

A garota desviou por centímetros. A esfera atingiu a parede do outro lado do Calçadão.

BRUM!

O impacto explodiu concreto para todos os lados. Uma pequena cratera se abriu na superfície.

Era água. Água não devia fazer aquilo.

— Não me impressiona ela estar sangrando —

comentou July ao meu lado, completamente calmo.

— O impressionante é ela ainda não estar sangrando mais.
— Por favor… me explica o que tá acontecendo…

Minha voz saiu quase desesperada. July me encarou.

Os olhos vermelhos dele eram desconfortavelmente profundos. Meu instinto foi abaixar o olhar.

— Tu fala educado demais.
— Ah…
— Tá falando com as pessoas erradas desse jeito.
— É… costume.

Ele suspirou. Parecia fazer muito isso.

— Aquela ali é a Kyny. O pessoal chama ela de Maxine por causa do sobrenome. Ela é minha melhor amiga.

Ele apontou para o homem da água.

— E aquele ali é o Joe. Segurança dessa lanchonete.

Joe.

Então era por isso que ela tinha chamado ele de “Jão”.

— A Kyny quer recrutar ele pro grupo da gente —

continuou July.

— Mas ele acha a ideia idiota.
— Grupo…?
— Tipo uma gangue.

Meu coração afundou.

— Gangue tipo… crime?
— Não. Pelo contrário.

Pela primeira vez, a expressão dele suavizou minimamente.

— A Kyny só tem mania de querer ajudar todo mundo.

Ele fez uma pausa curta.

— Às vezes é irritante pra caralho.

Olhei novamente para ela. Agora fazia sentido.

Ela não estava brigando por raiva. Ela estava tentando convencer aquele cara. Do jeito mais… Kyny possível.

Kyny começou a correr. Os raios voltaram a envolver seu corpo, descendo pelos braços até as pernas.

Então ela desapareceu. Ou melhor… se tornou rápida demais.

Joe disparou mais projéteis de água, mas ela desviava em movimentos absurdamente precisos, zigzagueando pelo Calçadão como um borrão elétrico.

Joe perdeu a paciência. Ergueu os dois braços. Os músculos tensionaram.

BOOM!

Um hidrante explodiu próximo dali. A água não jorrou descontrolada.

Ela dançou. Dobrou.

Girou no ar como uma serpente líquida obedecendo à vontade dele.

Então desabou sobre Kyny. A pressão esmagou a garota contra o asfalto.

A massa líquida a manteve presa. Submersa. Imóvel.

Joe começou a caminhar lentamente na direção dela enquanto controlava toda a água espalhada pelo Calçadão.

O chão inteiro virou território dele.

— Já deu… ou eu vou precisar te afogar?

A voz dele transbordava cansaço. E irritação.

Kyny não respondia.

— É disso que eu tava falando —

comentou July.

— O Joe é inteligente. Ele preparou o campo inteiro.

Então ele sorriu. Um sorriso pequeno. Quase perturbador.

— Pena que ele não conhece ela direito.

Os dedos de Kyny se moveram.

As mãos fecharam lentamente.

As faíscas voltaram. Mas agora não eram pequenas descargas.

A eletricidade explodiu. A água virou um condutor perfeito.

KRAK-KZZZT!

O clarão azul atravessou toda a massa líquida instantaneamente. 

Joe soltou um grito agonizante. Os raios envolveram seu corpo inteiro.

A silhueta dele brilhou contra a tarde alaranjada enquanto a eletricidade atravessava seus músculos.

Por um instante, parecia que a luz atravessava a carne dele.

Então… silêncio.

Kyny desativou a habilidade.

A água despencou no chão. Joe caiu logo depois. Inconsciente.

Kyny tossiu forte enquanto recuperava o ar.

Ela provavelmente tinha prendido a respiração de propósito para atrair ele até perto.

July finalmente saiu do meu lado. Ofereceu o braço para ela se apoiar.

— Tu demorou quase uma hora pra perceber que água conduz eletricidade.
— Ei! Em minha defesa, a gente passou boa parte da luta trocando porrada normal!

Ela respirava pesado.

— E eu tava tentando não chamar atenção.

July olhou para as pessoas assistindo tudo pelas janelas da lanchonete.

— Funcionou super bem.
— Ah, cala a boca.
— Espera! E ele?!

Apontei imediatamente para Joe caído no chão.

Kyny olhou para ele. Depois para mim.

Os olhos dourados dela pareciam absurdamente vivos. Ela sorriu. 

E, estranhamente, aquele sorriso apagou todo o medo que eu estava sentindo.

— Relaxa. Ele vai ficar bem.

Ela caminhou até mim. Encharcada. Machucada. Confiante.

Parou a poucos centímetros de distância.

— Kyny A. Maxine. Defensora local.

Ela estendeu a mão. Era um gesto simples. 

Mas parecia um convite para outro mundo.

— E você? Turista?

Apertei a mão dela.

— Tyrr O. Seraphim.

Respirei fundo.

— Agora eu moro aqui.
continua...