Corremos.
Atrás de nós, os gritos dos donos da lanchonete e as ameaças de chamar a polícia iam ficando cada vez mais distantes conforme ganhávamos vantagem pelas ruas de Twilight Harvest.
Kyny, mesmo completamente encharcada, insistia que “estava tudo bem”. Segundo a lógica dela, a culpa do vidro quebrado era do Joe e, como ele trabalhava lá, o prejuízo era problema dele.
Eu não tinha certeza se as autoridades concordariam com essa linha de raciocínio.
Mas não tive tempo para argumentar.
Continuamos atravessando ruelas estreitas enquanto o som de passos pesados ecoava logo atrás de nós. O estalo firme de botas contra o pavimento parecia militar demais para ser ignorado. Não me atrevi a olhar para trás.
Apenas corri. Mesmo fugindo, meus olhos não conseguiam parar de absorver a cidade.
Os prédios mantinham uma arquitetura colonial acolhedora, nenhum passando de três andares. Todos eram coloridos de forma quase artística, com floreiras transbordando nas janelas e pequenas varandas de madeira envelhecida.
As árvores ligavam tudo.
Era como se a natureza tivesse se recusado a abandonar Twilight Harvest e, em vez disso, tivesse aprendido a viver junto da arquitetura. Galhos conectavam casas, lojas e apartamentos como uma enorme rede viva abraçando a cidade inteira.
Depois de algumas curvas fechadas e becos estreitos, conseguimos despistar os oficiais. Parei imediatamente.
Curvei o corpo para frente, apoiando as mãos nos joelhos enquanto tentava desesperadamente recuperar o ar. Meus pulmões queimavam.
Eu sempre fui sedentário. “Fugir da polícia” definitivamente não fazia parte da minha rotina semanal.
Na verdade, eu nem precisava ter fugido. Mas, naquele momento, seguir aqueles dois estranhos parecia mais seguro do que ficar sozinho numa cidade onde pessoas controlavam eletricidade e água como se aquilo fosse normal.
Quando finalmente consegui respirar direito, ergui o olhar para entender onde estávamos. Não era mais o Calçadão.
Estávamos diante de uma cafeteria de fachada preta, elegante e fosca, quase como carvão polido. O toldo robusto possuía trepadeiras descendo lentamente pelos suportes até encostarem no chão.
Através da grande vitrine frontal, consegui ver um interior confortável, iluminado por luzes âmbar suaves que deixavam tudo acolhedor sem parecer sofisticado demais.
Foi então que meus olhos encontraram a parede.
Quadros. Fotos. Retratos. Centenas deles.
Entre todas as imagens espalhadas pelo ambiente, uma chamou minha atenção quase instantaneamente: três jovens sorrindo lado a lado.
Dois deles eram Kyny e July.
O terceiro era um garoto alto de cabelos longos em um vermelho extremamente vivo, quase hipnótico.
Perguntei entre respirações falhas.
Os dois olharam para mim com surpresa genuína, como se ainda não entendessem por que eu tinha continuado seguindo eles até ali.
Sinceramente? Nem eu entendia.
Ergui discretamente os olhos até o topo da fachada.
“For Long Tomorrow.”
O nome parecia poético demais para uma cafeteria escondida no meio daquela cidade estranha.
Kyny respondeu.
Ela também observava o letreiro, e por um instante nossos olhares se cruzaram.
Os olhos dourados dela continuavam me intrigando.
Não de forma romântica. Era uma curiosidade quase técnica.
Na cidade onde cresci, olhos daquela cor seriam considerados raros. Em Twilight Harvest, no entanto, parecia que o impossível era apenas parte da paisagem.
Ela perguntou, inclinando levemente a cabeça.
Hesitei. Por um segundo, tive vontade de contar toda a verdade. Que minha mãe praticamente me despachou para longe apenas para “limpar a casa” da minha presença.
Mas aquilo era bagagem emocional demais para despejar em duas pessoas que eu conheci durante uma briga sobrenatural envolvendo uma vitrine destruída.
E era verdade. Tudo ali parecia novo para mim. O céu aberto sem arranha-céus bloqueando a vista. A vegetação retomando o concreto.
A iluminação natural da cidade, como se Twilight Harvest estiver permanentemente presa em um fim de tarde.
July perguntou abruptamente.
A pergunta me atingiu como um soco. Eu percebi, naquele exato instante, que não tinha certeza.
Meus pais tinham me entregado apenas um endereço anotado em papel e instruções específicas de viagem. Um dos raros momentos de organização que tiveram comigo.
O silêncio ficou constrangedor rápido demais.
Kyny manteve o mesmo sorriso leve de sempre, quase como se nada naquela conversa fosse estranho.
Já July arqueou uma sobrancelha imediatamente. Ele parecia genuinamente preocupado com a possibilidade de eu ser um completo idiota.
O que era justo.
Corrigi rapidamente.
O que ela realmente queria dizer era: “Meu irmão é tão esquisito quanto você.” Mas achei melhor não verbalizar isso.
O silêncio que veio depois foi imediato. July virou lentamente a cabeça para Kyny com uma expressão de incredulidade absoluta.
Acho que minha cara estava exatamente igual.
Para ele, o choque vinha da facilidade absurda dela em confiar em um estranho.
Para mim… A palavra “amigos” simplesmente parecia irreal.
Eu não sabia se sobreviver a um evento sobrenatural era o suficiente para criar conexão entre pessoas tão diferentes. Mas, naquele momento, parecia ser.
E pensar no sobrenatural inevitavelmente trouxe minhas dúvidas de volta. O que exatamente eram aquelas habilidades?
A voz surgiu atrás de nós.
Suave. Calma. Mas forte o bastante para atravessar a rua inteira sem esforço.
Olhei imediatamente na direção da cafeteria. Uma mulher saía pela porta principal.
Ela era alta. Muito alta. Devia ter perto de dois metros.
Seu corpo possuía curvas harmoniosas e uma presença tão dominante que parecia preencher o espaço ao redor naturalmente. A pele escura contrastava de forma magnífica com os cabelos extremamente brancos, ainda mais claros que os de July.
Ela vestia um vestido casual branco sob um avental preto com o símbolo da cafeteria estampado em silk branco. Logo abaixo do logo, um nome bordado: “Themis.”
Ela se aproximou segurando uma toalha felpuda. Sem qualquer cerimônia, envolveu os cabelos molhados de Kyny and começou a secá-los com firmeza.
Kyny ria o tempo inteiro. A cena inteira tinha uma energia quase maternal.
Kyny protestava entre risadas.
Themis suspirou.
Kyny riu mais uma vez. Themis respondeu com um pequeno cascudo carinhoso no topo da cabeça dela.
...
Eu devo ter ouvido errado. “Vó?” Eu não consegui esconder o choque.
Meu silêncio e meu olhar fixo praticamente secavam aquela mulher que, para mim, não aparentava ter mais de quarenta anos. Se eu tivesse que chutar uma idade, diria algo próximo dos trinta e dois.
July percebeu minha reação imediatamente.
Ele não tirava os olhos de mim, mantendo aquela postura defensiva de quem ainda não decidiu se eu era uma ameaça ou apenas um turista perdido.
A ênfase na voz dele me trouxe de volta à realidade.
Themis finalmente desviou a atenção de Kyny para mine. Ela sorriu. Era um sorriso estranho de explicar — acolhedor, gentil, mas também carregado de compreensão. Como se ela já tivesse entendido exatamente qual era minha dúvida.
Perguntei ela, com uma suavidade quase maternal.
A surpresa me atingiu outra vez. Dessa vez, pelo pronome neutro.
Embora eu soubesse que minha aparência era naturalmente andrógina, no caso dela não parecia hesitação. Parecia apenas respeito.
Respondi, mais tímido do que gostaria.
Fiz questão de enfatizar o final da frase de forma sutil, tentando indicar como eu preferia ser tratado.
Ela entendeu imediatamente.
O jeito como ela reforçou o tratamento fez meu peito relaxar um pouco.
Ela apontou para Kyny, que soltou um “Ei!” indignado antes de começar a rir.
Perguntei, sem conseguir esconder a curiosidade.
Respondeu Themis.
Kyny falou aquilo com tanto orgulho que parecia estar apresentando um troféu.
No segundo seguinte, July acertou um tapa forte na nuca dela.
Themis repreendeu rapidamente.
Cento e trinta e cinco anos. A frase ecoou na minha mente repetidas vezes. Não fazia sentido. A pessoa mais velha que eu já conheci mal conseguia caminhar direito. Já Themis parecia… viva demais. Forte demais. Jovem demais. Aquilo era mais uma das bizarrices daquela cidade?
Eu não consegui me conter.
Nenhum deles reagiu como se fosse uma pergunta absurda.
Anomalia. Então era esse o nome. As habilidades da Kyny… do Joe… aquilo tudo eram Anomalias.
Comentou July, ainda me analisando.
Themis assentiu lentamente.
Meu corpo ficou imóvel.
Ela gesticulava calmamente enquanto explicava.
O jeito simples como ela respondeu tornou tudo mais assustador. E mais real.
Pegaram meu caderno quase por instinto. Anomalias. Vértice. Sobrenatural visível. Minhas anotações começaram a ocupar a página inteira.
Murmurei, tentando aliviar a tensão. O silêncio veio pesado. O sorriso de Kyny desapareceu devagar. July desviou o olhar por um instante.
Então Kyny falou:
July completou logo depois.
Meu coração disparou. Senti o ar fugir dos pulmões. Eu estava sozinho numa cidade desconhecida, cercado por pessoas capazes de controlar eletricidade, água e talvez qualquer outra coisa absurda que existisse naquele mundo escondido.
E se algo viesse atrás de mim? E se eu morresse ali sem ter feito absolutamente nada da vida? Sem sonhos. Sem objetivos. Sem nem ter beijado alguém legal pelo menos uma vez.
Minha mente entrou em colapso. Até que veio o calor.
Themis me puxou para um abraço antes mesmo que eu percebesse. Ela envolveu meus ombros com cuidado, apoiando minha cabeça contra seu peito enquanto acariciava meus cabelos lentamente.
O perfume suave de café e flores me atingiu primeiro. Depois veio a paz. Ela percebeu meu medo imediatamente. E decidiu cuidar dele.
Sussurrou ela.